O chá
Com a janela aberta senti a brisa quente e amena do outono, que me lembrou daquela
tarde na Califórnia, por um mês nos amamos intensamente, por um mês eu fui sua, por
um mês você foi meu, no outono daquele mês éramos jovens, com a libido a flor da pele
e o desejo insaciável de amar, nós entregamos de corpo e alma, sem medo das
consequências, danos ou perdas, o amor nos havia agraciado com o leve cobertor que
cobrira nossos olhos para a razão. O chá preto com leve aroma de bergamota que você
fazia todas as manhãs, me acalentando e me fazendo sentir amada, como perdemos tudo
isso? Por que a chama que esquentara nossas almas se apagou? Por que não nos
olhamos mais? Que frio intenso nos cercou? Um frio terrivelmente pior daquele que nos
encontramos em um inverno no norte do Canadá, éramos recém-casados, a chama
compartilhada por nossos beijos quentes era mais forte que qualquer grau negativo que
se erguera contra nós. Talvez o nicho dessa escuridão profunda tenha sido naquele
crepúsculo de verão no México onde não paramos para descansar, apenas trabalhamos
naquele quarto de hotel, não nos olhamos em nossas próprias férias, até que isso se
tornou rotina nas nossas vidas, findara nosso fogo e virtude, a morte levara aos poucos a
moribunda chama que se apagou vagarosamente, a partir daí nossos cafés tem sido
silenciosos, a única coisa que grita em prol das memórias da póstuma chama é o cheiro
do chá que preenche nossas xícaras todas as manhãs, a única memória viva que nos
mantém sorrindo timidamente um para o outro todos os dias, caímos em um buraco
profundo onde vivemos no automático, de forma mecânica, sem sentimentos, sem
dores, magoas ou abraços e beijos arrebatadores, o inverno extremo finalmente chegara
e nem o vapor de nosso chá foi capaz de manter o mínimo de aquecimento entre nós.
Porém minhas dúvidas e lamentos foram finalmente findadas, era uma das inúmeras e
rotineiras manhãs, senti o cheiro do chá, porém ao sair do quarto não te avistei, apenas
uma xícara com chá na mesa, sua aliança ao lado e uns papéis com seu nome assinado e
logo abaixo uma lacuna em branco, apenas sentei, respirei profundamente, assinei a
lacuna e bebi o chá, sem nenhuma lágrima em meus olhos.
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